terça-feira, 15 de junho de 2010

Juliana era uma pessoa.

"É claro que era uma pessoa", você vai me dizer, mas a verdade é que, naquela época eu tinha certa dificuldade em aceitar que todas as pessoas eram pessoas, independente de como eu me sentia a respeito delas. 
Então o que eu quero dizer com "Juliana era uma pessoa" é que até pra um babaca, arrogante e moralista
como eu, a Juliana era uma pessoa completa, sabe? Não dava pra detestar ela nem quando se estava no auge do seu surto megalomaníaco de se achar superior ao resto do mundo.
Então ok, estabelecemos que eu me achava superior a todo mundo e mesmo assim não dava pra negar que ela era incrível e coisa e tal.
Agora você me pergunta: "Que que nós temos a ver com isso?" e a resposta sincera é que absolutamente nada, mas um menino pode querer contar uma história, não pode? 
Eu acho que pode e por isso que eu vou contar.
Conheci ela não faço a menor ideia de como, sei que acho que trocamos telefones porque eu lembro que no começo da nossa amizade a gente se falava bastante por sms e nunca umas coisas egocêntricas e idiotas, sabe? 
Ela estava sempre contando pra gente que tinha visto um sagui, ou que tinha virado melhor amiga de um morador de rua e que amanhã ia levar ele pra jogar bilhar, não sei, sei que nunca era sobre sentimentalidades ou namoricos ou qualquer coisa chata que os outros adolescentes estão sempre falando sobre.
Ela até que morava perto da minha casa e, às vezes, a gente ia passear em uma loja de materiais de construção.
A gente entrava e ficava vendo as pias, os chuveiros, uma porção de adesivos de parede e coisas assim meio práticas, não sei bem porquê, mas eu achava muito relaxante passear por um lugar que não me dava nenhuma vontade de comprar nada, ela no entanto queria comprar tudo, ficava imaginando a casa que um dia ia ter
(eventualmente ela me confessou que sabia que nunca ia ter a casa que ela queria, porque ninguém nunca tem), mas ela fantasiava que ia e ria, mas não esses risos que se propõe a ser graciosos, sabe? 
Tem sempre uma menina que tenta começar a sorrir de um jeito gracioso, achando que a gente vai achar ela uma fofa e não só uma vigarista meio esquisita que não é sincera nem na hora de rir. 
Enfim, a Juliana não era nada assim, ela só ria se achava as coisas engraçadas e não ficava nada fofa rindo, ficava até meio torta, vermelha demais, fazia uns barulhos engraçados, gargalhando assim, às vezes das próprias piadas, às vezes de uma coisa hilária que aconteceu e ela tinha esquecido de me contar e agora que lembrava não conseguia parar de rir e acaba estragando toda a piada, mas eu até que gostava quando ela fazia isso, era sincero, enfim...
Quando eu falo da Juliana assim as pessoas logo presumem que eu vou contar sobre um romance ou alguma dessas chatices, mas a Juliana, pra mim, sempre foi tipo um co-piloto, não, não exatamente um co-piloto, bem, ela era alguém que eu chamava na hora de tomar alguma decisão ou quando eu precisava de um alívio
cômico na minha vida, mas ninguém acreditava porque ela era muito bonita, não vou ficar aqui descrevendo o cabelo dela e sei lá o que porque, apesar dela ser bonita e isso fazer as pessoas presumirem um romance, a aparência dela não podia ser menos relevante pra mim, ela era legal, uma companhia agradável e
constante, era isso que ela era pra mim.
De vez em quando a gente sentava na frente da pizzaria que tinha na rua dela e dividíamos uma pizza cortando tudo errado e ficando com as mãos totalmente engorduradas, eu adorava comer pizza assim com ela, a gente até gostava dos mesmos sabores: Napolitana e quatro queijos.
Um dia a Juliana estava absolutamente infeliz porque o cara que ela tava ficando na ocasião tinha terminado com ela com uma desculpa meio absurda e ela ficou achando que tinha feito alguma coisa pra espantar o palhaço e veio em casa pra chorar, foi estranho.
Um monte de lágrimas e cabelo na cara dela, parecia que alguma coisa realmente horrível e importante tinha acontecido e eu só conseguia pensar "Nossa, mas e daí? Tanta gente no mundo". 
Em retrospecto eu fico muito feliz de não ter falado nada sobre estar achando aquilo tudo um exagero, eu só sentei do lado dela e ofereci chocolate, depois a gente assistiu um filme e ela começou a parar de chorar. Foi muito estranho.
Foi mais estranho porque a gente não falava muito sobre os caras que ela ficava ou as meninas que eu não ficava (porque não conseguia achar nenhuma delas remotamente interessante e a ideia de colocar minha língua em contato com a saliva de outra pessoa era completamente repulsiva pra mim).
Eu lembro de achar estranho, achar aquela situação estranha porque, na minha cabeça racional, eu sabia que era absolutamente normal pra uma menina de 16 anos se sentir assim em relação a algum menino e que, talvez, era um pouco fora do comum que eu nunca tivesse tido vontade de me sentir assim também.
Um dia ela resolveu que eu que tinha que dançar com ela na formatura:
- Por favor?
- Não tenho nem roupa pra um negócio desses, sério.
- Eu ia achar muito legal, por favor, vai?
E eu não fui, acho que ela ficou meio magoada por um tempo, não lembro direito, acho que ficou, mas aí depois ela teve uma festa de sei lá quem e como eu aceitei ir com ela dessa vez, tudo voltou ao normal.
Essa festa foi muito legal, inclusive, a gente dançou aquelas músicas que tem em absolutamente toda festa muito animadamente, depois ela se interessou por um menino e quando foi ver, a melhor amiga dela resolveu ficar com o cara. 
Eu nunca entendi ela ser amiga de uma pessoa que fazia esse tipo de coisa regularmente.
Essa amiga dela, inclusive, vivia tentando ser minha amiga, quando viu que não ia conseguir de jeito nenhum, veio tentar dar em cima de mim, quando nada aconteceu ela foi lá e ficou com um outro amigo da Juliana, sei lá, ficar sabendo dessas coisas era a parte chata de conviver com alguém.
Acontece que as partes legais ganhavam de longe das partes chatas, eventualmente a gente começou a estudar na mesma escola, nos víamos todo dia, ela tinha outros amigos e não passava todo o tempo comigo, mas era legal mesmo assim, só não muito quando esse cara que eu detestava (e ela sabia que eu detestava) começou a falar com ela todo dia e ela não só respondia como marcava de sair com essa pessoa odiosa, não que eu tivesse nada a ver com isso, mas me irritava um bocado.
Só teve um episódio meio estranho de quando a gente estudava junto, até hoje não sei direito o que aconteceu, eu tava sentado num banco e do nada ela veio e sentou no meu colo, devia estar querendo fazer ciúme pra alguém, não sei.
Foi legal estudar com ela e melhor ainda foi não ter que negar ir na formatura, já que a gente se formou junto.
Acho que eu lembrei como a gente se conheceu, foi uma coincidência muito grande, agora que eu estou lembrando, a gente se conheceu no interior, ela tinha ido por acaso na casa de um tio avô, foi pra lá essa única vez, os primos dela conheciam os filhos do caseiro da minha casa e a gente morava na mesma cidade, no mesmo bairro, olha que coincidência.
No dia que a gente se conheceu a gente falou disso, do nosso bairro. 
Das sorveterias do bairro e dos parques e dos bancos e dos riachinhos, era um bairro legal o nosso e ambos gostávamos muito dele.
Acho que foi por isso que eu quis ser amigo dela logo de cara, não conhecia (na verdade não gostava) de ninguém que eu conhecia do meu bairro, as pessoas estavam sempre me chamando pra jogar futebol ou se encontrar com meninas pra tentar fazer elas ficarem interessadas na gente, não que nenhum deles quisesse conhecer uma menina legal e saber o que ela gostava de fazer e conversar com ela, não, era sempre dar uns beijos babados e eu só posso presumir que terrivelmente desagradáveis e depois voltar pra casa contando vantagem de quantas vezes eles já tinham babado na boca de outra pessoa, sabe?
Então foi um alívio conhecer alguém que não ia me chamar pra jogar futebol ou participar desses rituais de acasalamento esquisitíssimos. 
Achei ela meio estranha no começo porque ela gostava mesmo de ser estranha, às vezes usava fantasias na rua, gostava de ver como as pessoas reagiam, nada estranho ruim, só estranho mesmo.
Outra coisa que eu achava legal na Juliana é que ela gostava muito dos meus bichos, mesmo não tendo nenhum dela. 
Ela sempre pedia pra entrar na minha casa pra brincar com o Shananigam, meu gato vira-lata adotado da rua, e com a Gata, minha cachorrinha também vira-lata e também adotada da rua, sem contar que ela tinha verdadeira paixão pelo Reminardo, meu coelho cego que adotei de um abrigo, ele não podia ver ela que vinha correndo, ficava no colo dela ganhando carinho um tempão... 
Nunca consegui sequer simpatizar com quem não gosta de animais.