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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Morte por feiura.

Eu sinto que eu sempre estou errada.
Desde que engordei, eu estou sempre mais errada.
Eu engordo e emagreço muito e com muita facilidade, então de um mês pra outro um vizinho que era simpático comigo, para de ser e vice-versa.
Quanto mais dentro do padrão eu me enquadro, mas eu sou bem tratada e mais certa eu estou, mais validada eu sou, mais pessoas falam comigo, mais mais mais, quanto menos espaço eu ocupo, mais bem quista.

Nesse momento, nessa gordura, nesse estado, eu sempre que abro uma revista ou vejo uma representação de alguém que parece comigo, é sempre o errado.
O que usar x O que NÃO usar
Eu realmente só devo me amar e me aceitar quando consigo perder peso?
Meu valor tá diretamente ligado a minha estética?

Não, claro que não, olha quanto movimento de body positivism existe... na internet.
Na internet tem gente gorda que é amada, na internet tem gente gorda que se aceita, que se ama, que não quer mudar, que ninguém manda um "olha só tô falando isso porque me preocupo com a sua saúde", mas é só.

Na vida, no mainstream, toda propaganda, toda mídia, tudo que me cerca e que me ataca diariamente conta com a ideia de que a mulher precisa ter no máximo do máximo estourando 65kgs.
Um quilo a mais e pronto, impossível aparecer na câmera sem alguma chacota sobre esse quilo a mais.
Quando eu estava na faculdade um "colega"costumava dizer que eu "estava a um pãozinho de" e fazia um gesto de balão explodindo.

Ninguém achava uma brincadeira absurda, todo mundo ria, meus colegas, meus amigos "Ai Tito..." como quem diz "ai você é fogo", tem coragem de falar o que todo mundo tava pensando, hehehe hahaha hihihi

As pessoas que fizeram as piadas não devem lembrar nem se eu contar pra elas.
"Quem bate não lembra, quem apanha nunca esquece", ou algo do tipo.

Essa inadequação dentro do meu próprio corpo, meu templo, que me leva de um lado pro outro, minha interface pro mundo, atrapalha absolutamente tudo na minha vida.
Minha autoestima intelectual está bizarramente ligada com todo o resto da minha autoestima.

Eu não consigo me sentir esperta habitando um corpo que me traz tanta mágoa, porque não é esperto mesmo, eu sei como emagrecer e deveria só ceder mais uma vez e ficar do jeito que querem que eu fique, sempre com uma leve dor de estômago e uma raiva reprimida por saber que todo aquele bem estar que vem com minha "beleza" exterior é condicional a eu continuar "bonita" para continuar a ser mais amada e respeitada e admirada.

Todo gordo do mundo vai saber exatamente do que eu estou falando e quase toda pessoa que nunca foi gorda, nunca sentiu seu valor diminuir conforme o seu peso vai aumentando vai pensar "ai, só emagrece, não é tão difícil". 

Mas é difícil viver sabendo que em alguns anos a gordura não vai mais ser o problema e sim meu envelhecimento, ter mais anos e mais sabedoria e mais conhecimento, vai me fazer menos valorosa, porque, novamente, menos agradável aos olhos.
E segue a vida da mulher que ainda não conseguiu desconstruir essa maldita sentença de morte por feiura.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Por uma moda inclusiva

Quando eu era criança eu amava comprar roupinhas, me sentia um máximo.
Roupa de criança parte do pressuposto que crianças são crianças, não têm peito, têm quadril de infantil, são magras (nem sempre), mas mesmo nessa exclusão das crianças gordas (e deficientes, sempre), crianças gordas ou magras não têm peitão, cintura assim ou assado, bunda pra lá ou pra cá e afins, no fim das contas para uma criança gorda de 8 anos você compra uma roupa de criança de 14 e manda fazer a barra. Não é realmente inclusiva e preocupada com o bem-estar das mesmas, mas não é tão traumático quanto ser adulta e tentar se vestir, ah, ser adulta e tentar se vestir...
Antes da revolução industrial, quando você precisava de uma roupa você ia até o seu alfaiate, passava as suas medidas, entregava o pano e ele te dava um prazo de quando a sua maravilhosa roupa ficaria pronta. Depois da revolução industrial, tudo sendo produzido em massa e absurdas quantidades da mesma peça sendo vendidas por aí, teoricamente o mundo da moda teve que fazer uma média das pessoas do mundo e basear seus moldes nisso.
Acontece que as pessoas que estão na média, ainda assim, não estão de fato na média.
Existem mulheres magras que quase não tem peito, bunda e são muito altas. Mulheres magras com bastante peito, sem nenhuma bunda e baixas. Mulheres magras quase sem peito, com muita bunda e estatura mediana. Mulheres nem gordas, nem magras, de peitos enormes e coxas largas, bem baixinhas, enfim... Existe uma infinidade de corpos diferentes no mundo. Uma infinidade de mulheres diferentes. E a ideia doentia de que só um tipo deles é bonito, desejável e merece entrar numa loja para comprar uma roupa e sair de lá feliz e com a auto-estima intocada.
Quando eu pesava 57kgs era bem magrinha para o meu biotipo, tenho pernão, bundão, peitão e sou bem pequena, ombros estreitos, pernas curtas e coisa e tal, mas com 57kgs era definitivamente magra, magra de ter osso aparecendo no peito e no quadril magra, mas sempre me senti gorda, muito gorda. E por quê? Porque toda vez que eu entrava em uma loja para experimentar roupas, tudo que eu vestia tinha um decote compulsório (que geralmente não era para estar ali), as calças que me serviam eram grandes demais e ficavam com uma fenda enorme entre a cintura e a bunda, as roupas não caiam bem em mim e eu sempre tinha que fazer barra nas minhas calças. Isso quando eu pesava 57kgs. Agora eu peso um milhão de quilos  (ou pelo menos é como a industria da moda quer que eu sinta que eu peso), sim, porque depois de engordar alguns quilos, além de não conseguir achar roupas para mim nem nas lojas normais, nem nas lojas plus size, ainda tenho que lidar com o olhar de nojo e dó de atendentes mulheres que são ensinadas a competir entre si, a tentar humilhar qualquer mulher inferior (as mulheres inferiores são as gordas, negras, de cabelos não lisos, as velhas e enfim, qualquer pessoa que não tenha nenhuma representatividade nas passarelas).
Parece que a indústria da moda fez um acordo com a indústria farmacêutica e elas combinaram que nunca faria roupas com caimento perfeito, pra que, principalmente nós, mulheres, sempre nos sintamos um grande lixo e tenhamos que tomar remédio contra ansiedade, contra depressão, pra dormir, pra emagrecer, pro nosso cabelos ser mais liso, pra nossa pele não ter marcar e afins, porque só nesse caso a indústria da moda daria aval para que alguém pudesse se sentir bem.
Sei que precisa de muito feminismo na vida pra passar por isso nas lojas e não sair de lá se sentindo um mamute. Muito feminismo mesmo.
Enfim, você já passou por algo parecido?
Qual o seu biotipo?
Conta pra mim como você se sente sobre isso.
Agora uma imagem nada a ver:

Beijo, beijo,