Eu sinto que eu sempre estou errada.
Desde que engordei, eu estou sempre mais errada.
Eu engordo e emagreço muito e com muita facilidade, então de um mês pra outro um vizinho que era simpático comigo, para de ser e vice-versa.
Quanto mais dentro do padrão eu me enquadro, mas eu sou bem tratada e mais certa eu estou, mais validada eu sou, mais pessoas falam comigo, mais mais mais, quanto menos espaço eu ocupo, mais bem quista.
Desde que engordei, eu estou sempre mais errada.
Eu engordo e emagreço muito e com muita facilidade, então de um mês pra outro um vizinho que era simpático comigo, para de ser e vice-versa.
Quanto mais dentro do padrão eu me enquadro, mas eu sou bem tratada e mais certa eu estou, mais validada eu sou, mais pessoas falam comigo, mais mais mais, quanto menos espaço eu ocupo, mais bem quista.
Nesse momento, nessa gordura, nesse estado, eu sempre que abro uma revista ou vejo uma representação de alguém que parece comigo, é sempre o errado.
O que usar x O que NÃO usar
Eu realmente só devo me amar e me aceitar quando consigo perder peso?
Meu valor tá diretamente ligado a minha estética?
Não, claro que não, olha quanto movimento de body positivism existe... na internet.
Na internet tem gente gorda que é amada, na internet tem gente gorda que se aceita, que se ama, que não quer mudar, que ninguém manda um "olha só tô falando isso porque me preocupo com a sua saúde", mas é só.
Na vida, no mainstream, toda propaganda, toda mídia, tudo que me cerca e que me ataca diariamente conta com a ideia de que a mulher precisa ter no máximo do máximo estourando 65kgs.
Um quilo a mais e pronto, impossível aparecer na câmera sem alguma chacota sobre esse quilo a mais.
Quando eu estava na faculdade um "colega"costumava dizer que eu "estava a um pãozinho de" e fazia um gesto de balão explodindo.
Ninguém achava uma brincadeira absurda, todo mundo ria, meus colegas, meus amigos "Ai Tito..." como quem diz "ai você é fogo", tem coragem de falar o que todo mundo tava pensando, hehehe hahaha hihihi
As pessoas que fizeram as piadas não devem lembrar nem se eu contar pra elas.
"Quem bate não lembra, quem apanha nunca esquece", ou algo do tipo.
Essa inadequação dentro do meu próprio corpo, meu templo, que me leva de um lado pro outro, minha interface pro mundo, atrapalha absolutamente tudo na minha vida.
Minha autoestima intelectual está bizarramente ligada com todo o resto da minha autoestima.
Eu não consigo me sentir esperta habitando um corpo que me traz tanta mágoa, porque não é esperto mesmo, eu sei como emagrecer e deveria só ceder mais uma vez e ficar do jeito que querem que eu fique, sempre com uma leve dor de estômago e uma raiva reprimida por saber que todo aquele bem estar que vem com minha "beleza" exterior é condicional a eu continuar "bonita" para continuar a ser mais amada e respeitada e admirada.
Todo gordo do mundo vai saber exatamente do que eu estou falando e quase toda pessoa que nunca foi gorda, nunca sentiu seu valor diminuir conforme o seu peso vai aumentando vai pensar "ai, só emagrece, não é tão difícil".
Mas é difícil viver sabendo que em alguns anos a gordura não vai mais ser o problema e sim meu envelhecimento, ter mais anos e mais sabedoria e mais conhecimento, vai me fazer menos valorosa, porque, novamente, menos agradável aos olhos.
E segue a vida da mulher que ainda não conseguiu desconstruir essa maldita sentença de morte por feiura.