Tragédia não se anuncia, só acontece.
Por parte de mãe eu tenho muitos tios e tias, já meu pai tem só um irmão.
O tio Leandro.
Ele que era uma figura calma, comedida, organizada, alegre.
Eu falo no passado porque meu pai acabou de perder seu único irmão, seu irmão mais velho que tinha acabado de fazer aniversário. Do nada.
Eu escrevo esse texto ainda sem entender ou acreditar no que de fato aconteceu.
Uma violência descabida contra uma pessoa completamente pacífica.
Pacífica no falar, no andar, em cada gesto.
Eu simplesmente não consigo acreditar que alguém seria violento com meu tio, tão violento a ponto dele não existir mais.
Nenhuma das minhas escolhas me levou a conhecê-lo, ele simplesmente estava lá.
Esteve sempre. E agora não estará nunca mais.
Nenhuma festa, nenhum evento, eu nunca mais vou ver, ele não vai mais dar nenhuma carona ou só ficar sentado com aquele jeitinho dele no Chavão.
- oi, tio.
- oi, Fê.
Sei lá, a vida pode ser não só estranha como brutal.
Brutal mesmo.
Meu pai dorme aqui em casa quase todo fim de semana e o tio que traz ele.
Eu acho que religiões existem porque caso contrário, nesses momentos, todo mundo ficaria muito bravo, muito nervoso, muito muito revoltado.
Não se tira a vida de alguém.
Não se tira a vida de ninguém.
Não deveria sequer se ameaçar uma pessoa, quem dirá uma covardia tão selvagem, tão descabida.
Todo mundo devastado.
Ver meu pai chorando.
O único irmão.
E meu avô? Perder o filho desse jeito.
Quando eu falei com ele no telefone ele disse que "já estava equilibrado".
Meu vô, tudo que ele já passou, toda tristeza e mágoa e ele não reclama nunca.
"Deus não dá fardo maior do que a gente pode carregar" e esse é o mote da vida dele, não importa que horror, que situação de desalento ele passe, nunca vi ele reclamar.
E não há nada que eu possa fazer pra ajudar.
O horror aconteceu, a pior das violências.
E é isso.