sábado, 18 de abril de 2015

Sapatos, roupas, acessórios

Quando eu era pequena, o sonho da minha vida era ter um banheiro com mil shampoos, um de cada cor. Minha mãe me explicava que não era bem assim que se comprava shampoos, mas a ideia de ter mil frascos coloridos no meu banheiro me animava muito!
Quando eu era pequena, eu amava perfumes, tinha todos da Ma Cherie d'O Boticário, kitezinhos com gloss e sabonetinhos e todas espécie de fofura feminina.
Quando eu entrei na adolescência, comecei a usar maquiagens, AMAVA batons e lápis, achava um máximo porque era como poder fazer uma pintura em cima do nosso rosto, era sensacional!
Quando eu era pequena, adolescente e jovem eu tinha um primo, esse primo era meu melhor amigo, ele era três anos mais velho e eu achava ele o cúmulo da sensatez e inteligência, admirava e adorava ele, riamos de tudo quando estávamos juntos, mas ele não tinha a mesma estima por mim e estava sempre me falando no que eu deveria melhorar.
Um dia, no apartamento dele (que era diretamente embaixo do meu), cheguei toda feliz, porque iríamos sair, cheia de batons e maquiagens.
Ele estava bravo por algum motivo e brigando com alguém, entrei, sentei do lado para esperar e antes que eu falasse qualquer coisa ele me disse que eu era horrorosa, baranguenta e burra, com aquela maquiagem ridícula na cara.
Se eu tivesse alguma auto-estima na ocasião (o que não era o caso, era uma menina gordinha e ridicularizada na escola) teria mandado ele tomar no cu e continuado a viver feliz colorindo meu rosto, mas eu não tinha. Eu não tinha e achava ele sensato. Não tinha e achava ele inteligente. Não tinha e achava ele mais legal, porque afinal de contas ele era menino.
E a partir desse dia eu passei a achar maquiagem, roupas, bolsas, acessórios e qualquer espécie de vaidade coisa de menininha burra e fútil. Não queria ser como elas.
Comecei a usar roupas largas, parei de pentear o cabelo e a me importar com a minha aparência, já que eu já era horrorosa, que pelo menos eu não fosse uma horrorosa baranguenta, como, do nada, meu primo achou que seria bacana pontuar que eu era.
De qualquer forma, sem que eu entendesse, mantive essa ideia de que vaidade estava intrínseca e indiscriminadamente ligada a futilidade (coisas que todas sabemos que é mentira), e fiz muito pra tentar me afastar disso, desse estigma de "bonita, mas burra".
Porque teve essa também, cresci um pouco e fiquei bonita, agora todo mundo me achava muito bonita, mas eu não queria ser só bonita, não queria ser fútil. E me neguei sapatos, bolsas, acessórios e maquiagens a minha vida inteira.
Mas, quer saber?
Eu adoro sapatos, bolsas e acessórios.
Nunca vai ser um foco na minha vida, o resto do mundo sempre vai me interessar mais que isso, mas nunca mais me nego a tentativa de me sentir melhor comigo mesma.
Que as feminices sejam celebradas, porque tentar separar meninas inteligentes de feminilidade é, também, uma forma de opressão. É dizer "ou intelectual ou arrumada" e não, queridxs, intelectual, arrumada, linda, fofa, zen e mística.

E se reclamar me arrumo em dobro.

Agora uma imagem nada a ver:


Beijo, beijo,


Um comentário:

Dúvidas?