sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Um Texto Para Minha Família.

Ou: Porque quem vota a favor do Bolsonaro vota contra mim.

A minha família por parte de mãe nunca me preocupou muito na hora das eleições, uma ou outra ovelha desinformada acaba por dar seu voto em alguém de má fé, mas em geral, não há apoio algum a facistas.
Já por parte de pai, infelizmente, o antipetismo se instalou a ponto dos mesmos se unirem para votar no Bolsonaro.
Nesse texto, mesmo sabendo que não vou fazer nenhum deles mudar de ideia, explico porque me machuca, mágoa e fere meu coração que minha própria família vote contra mim.
Eu não participo de muitas minorias, mas de algumas, sou mulher, gorda, bissexual, tenho depressão, ansiedade crônica e autismo, sou da classe média e branca.

Bolsonaro é uma ameaça, não uma alternativa.
Quando você prefere esse homem a suposta "esquerda", o que você está me dando é uma sentença de morte.
Esse homem pauta a campanha dele em violência.
Sabe o que isso significa pra alguém com ansiedade crônica?
Se eu não saio de casa hoje por causa dos ataques de pânico, aí é que eu não saio nunca mais.
Minha família sabe que eu sou atriz e DEPENDO do incentivo a cultura, outra coisa que esse homem promete acabar com.

Eu, como vítima de estupro, revivo com medo o que aconteceu comigo toda vez que alguém cita a infâmia que o mesmo proclamou contra Maria do Rosário.
Porque se ele acha que alguém merece ser estuprada e acabou de ser coautor de uma proposta que desobriga o SUS a atender vítimas de estupro, quão segura eu estarei, quão seguras minhas primas, tias, sua netas, bisnetas, sobrinhas, suas filhas, quão seguras elas estarão se por acaso isso acontecer também (ou de novo) com elas?
Votar no Bolsonaro é votar contra o futuro.

Vocês acham que sabem muito mais sobre política porque viveram a ditadura "e naquela época era bem melhor", mas perguntem pros seus filhos, sobrinhos, netos: é isso que vocês querem pro futuro de vocês?
Porque somos nós que vamos estar aqui pelos próximos 50 anos, a consequência vai sobrar pra gente, então, por favor, nos escutem: a gente quer paz.

A gente quer faculdade de graça pra pobre (já que o rico sempre teve, dinheiro compra educação e educação garante vaga na federal), a gente quer educação de qualidade pra todo mundo, a gente precisa de cultura, a gente quer um mundo mais sustentável, poder ter nossos próprios filhos sem medo do fascismo, da repressão.
Pelo amor de Deus eu imploro a cada um de vocês, da minha família, que supostamente me ama: não façam isso com a gente.

Não nos coloquem num futuro sombrio, cheio de armas, violência, medo e repressão.
Não querem o PT no poder? Votem em outra pessoa, QUALQUER OUTRA PESSOA.
Isso sou eu apelando, implorando: não façam isso com quem vocês deviam cuidar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Lacerações.

O constrangimento que a gente sente quando um relacionamento de muitos anos acaba é tão tolo quanto engraçado.
É como se a gente tivesse sido estúpido, burro, como se a gente tivesse perdido nosso tempo, mas a verdade é que tudo são experiências.
Por mais que doa, por mais que você tivesse como entender antes, talvez o entender depois seja parte de alguma coisa que o seu subconsciente precisava pra aprender, ou talvez esse seja só um jeito da gente se sentir menos usada.
De perder um relacionamento assim o que mais me magoa é a perda do amigo.
A pessoa que você pensava que podia contar com, que estava ali pra você e principalmente, queria o seu bem.
Quando você descobre que essa pessoa não vai mais estar lá pra te contar uma piada ou te fazer uma janta.
E você também cometeu erros, muitos erros, mas nenhum de propósito.

Você é só o espectador de um filme triste que não acaba nunca.
A parte mais difícil talvez seja abandonar a esperança de que vai melhorar, você sempre achou que ia e fantasiou com dias melhores que agora você tem certeza que nunca vão existir.

É como se algo morresse, dentro e fora de você.
E ao mesmo tempo que é terrível, você se acostumou com coisas terríveis então é só mais um dia.

Você não reconhece seu reflexo no espelho porque ele não está mais ali, o que você vê é um fantasma dos seus sonhos mortos e de tudo que você deixou pra traz.
Perder os sentidos estando consciente é perder a esperança.
Ela não é bem a última que morre, quem morre por último é você, vazio, sabendo que vai ter que se reconstruir e nunca mais vai ser igual.
Dizem que na China quando uma porcelana se quebra ela é restaurada com ouro, pra que as cicatrizes dela a tornem mais bonita.
Não acontece o mesmo com um coração.
Cada calo, cada bolha, cada corte e rachadura ficam lá, latejando muito no começo, depois vai melhorando e melhorando, mas nunca de fato vai embora, se torna uma parte do que você é para sempre.
O seu futuro alterado pelas suas lacerações.
Às vezes, eu me pergunto se existe alguém que passou pela vida e só experimentou o melhor dela.
Foi amada incondicionalmente pelos pais, foi educada, teve amigos, aprendeu, conheceu o mundo, fez o mundo um lugar melhor e morreu sem nenhum trauma.
Espero que sim.
Mas acho que não.
Talvez porque ser um humano seja isso, morrer diversas vezes ao longo da vida e ainda assim tentar cultivar o que tem de bom dentro da gente.
Mesmo machucado, saber que a gente aguenta, a gente é forte.
E quando a gente de fato não aguentar mais: paz. Pra sempre.
Ou qualquer outra coisa, talvez ainda mais cruel.
Mas isso é uma preocupação pra quando não tiver mais nada pra restaurar, por enquanto, os cacos ainda não são pó.