sábado, 13 de outubro de 2018

Perdoar.

Há alguns anos atrás, quando meu maior interesse depois de artes era religião e não política, fiz um curso sobre os Kahunas do Hawaii.
Nesse curso aprendi muita coisa genial e curiosa, muita coisa que me ajudou a questionar e a me curar, dentre elas essa oração que se chamava "oração Kahuna do perdão", foi traduzida pelo maior estudioso da língua Havaiana e dos Kahunas.
A oração era essa e durante todo o processo que me permitiu me desvencilhar de um relacionamento terrivelmente abusivo eu fiz a oração.
Há na maioria das religiões um segredo na crença que qualquer comportamento que você reproduza por 21 dias consecutivos vira um hábito.
Seja comer bem, se exercitar, rezar ou se perdoar.
Então por diversas vezes eu começava a oração e no décimo dia parava, esquecia, dormia em outro lugar. Começava de novo e assim ia indo.
Até que eventualmente eu concluí a oração e percebi que o perdão que a oração por vezes coloca como sendo vindo de você e indo em direção ao outro, na verdade é todo direcionado a si.
Pelas más escolhas que mantiveram pessoas que te prejudicaram por perto, por toda a raiva e mágoa que você já sentiu, por todo pensamento horrível ou sensação de superioridade.
Essa oração é uma das muitas formas que uma vez eu encontrei de me perdoar.
E eu não tô falando de milagres religiosos e sim da percepção que o seu cérebro tem sobre ele mesmo quando a gente decide parar de se odiar e resolve gastar tempo tentando ser uma pessoa melhor.
Eu recomendo pra qualquer pessoa do mundo tentar se amar mais, mas não faço o mesmo comigo.
Cada vez que me olho no espelho me julgo tanto e com tamanha crueldade que sinto medo pelo que eu posso vir a pensar de outras pessoas.
Como espalhar amor sendo um vaso vazio dele?
Todo dia eu me xingo das piores coisas: fraca, covarde, vazia, preguiçosa, nojenta, fracassada, burra e essas são só as coisas possíveis de publicar.
Critico meu cabelo, minhas roupas, meu corpo, detesto meu papo e meu braços moles, detesto tudo com tamanha maldade que não sei como continuo acordando todos os dias só pra me odiar de novo.
Nessas de sentir ódio de si é muito fácil sentir ódio dos outros, então eu tenho sempre essa linguinha ferina pronta pra atacar qualquer um que me faça lembrar dos meus fracassos e incapacidades, qualquer um melhor que eu e quando você se odeia todo mundo é melhor que você.
Eu uso minha própria história pra me sentir pequena, diminuída, menos merecedora de amor e oportunidades, eu uso minha história passada pra justificar ser refém e vítima de mim no presente.
"Como que alguém sem educação que não se esforçou o suficiente na escola ia ser alguma coisa hoje em dia?"
"Você conseguiu algum apoio e reconhecimento quando fazia os vídeos só porque na época estava mais dentro do padrão e os caras queriam te comer"
"Nada do que você fez tem valor e seus pais não te amam porque não existe nada amável em você"
"Seus pais não te amaram desde que você nasceu porque você é detestável e hoje em dia virou essa merda porque não tinha como ser melhor"
O relacionamento mais cruel e abusivo que eu já vivi é comigo.
Eu não consigo me deixar em paz um minuto e por não me deixar em paz é difícil florescer e crescer e ser melhor, mais esperta, descobrir um ofício possível, me amar, amar as pessoas ao meu redor, tentar deixar o mundo melhor com a minha presença, tudo fica muito difícil.
E eu já fui outras pessoas, já me amei muito então eu sei que é possível. Daí eu lembrei dessa oração.
Lembrei da Jane Fonda me incentivando a cuidar do meu cérebro primeiramente e exercícios são um ótimo jeito de fazer isso.
Lembrei dos mantras, dos livros, dos meus gatos, lembrei que tem algo ou alguém aqui dentro desse vaso que merece sim ser amado e respeitado, principalmente por ele mesmo.
E agora que eu lembrei eu não quero esquecer, mas parece que toda semana eu lembro e ainda assim continuo a reproduzir maldade e machismo comigo, principalmente.
Mas tudo isso vaza, pra desconstruir tudo que há de pior em mim, eu preciso parar de achar que eu sou tudo que há de pior.
Não desejo o mal de ninguém e amo muito fácil, ainda assim não consigo me amar.
Em crises eu já tentei transferir esse ódio que sentia de mim pra uma outra vlogger, que brigou comigo uma vez, uma ex namorada do meu atual companheiro, já me concentrei nesses dois ódios, contra mulheres, porque talvez eu reconhecesse alguma semelhança entre nós e o machismo, a sociedade patriarcal, me ensinou que tá ok odiar outra mulher, é normal, a gente é louca mesmo.
No auge dos meus estudos feministas eu compartimentalizava toda minha intelectualidade e ia atacar outra mulher "ah, mas ela é machista, um desfavor como mulher, só fala merda", nada, nada, nada, nada no mundo justifica alguém estudar sobre feminismo ao mesmo tempo que agride outras mulheres, só demonstra o quanto você não entendeu nada do que leu e provavelmente só o fez por motivos egoístas, por superioridade moral... a verdade é que enquanto fazia isso, nunca fui mais miserável e triste.
Xingava a moça e me sentia o pior dos piores lixos do mundo.
Me comparava com ela e queria vencer, vencer o quê?
Como se vence da existência de outra pessoa que (na minha crença pessoal) é só um pedaço de você.
A mesma entidade infinita tendo milhares de experiências pra se conhecer melhor.
Odiar é como se apunhalar no coração e esperar que o outro sinta a dor.
Nunca foi sobre outra pessoa e ainda assim me senti no direito de infernizar um terceiro, que tristeza e baixeza.
Por essas e outras atrocidades que cometi preciso me perdoar.
Por toda vez que meu companheiro me chama de linda e eu respondo, quase que automaticamente, com um "feia".
Por toda vez que eu olho com nojo pro meu peito porque ele é caído, ou com raiva da minha barriga porque ela tem estrias, toda vez que eu debocho mentalmente de outra menina gorda que tem a coragem de se amar, mesmo que por um milésimo de segundo, mesmo que eu reprima o pensamento em seguida, ninguém nunca e em hipótese alguma deveria ser julgado por se amar, se aceitar, se entender. Isso sim é inveja.
Ver alguém que se ama e não poder dizer o mesmo de si é o primeiro passo pra maldade, pra experimentar sua pior versão possível.
Eu me sinto tão malvada que ontem assisti uma série e falavam sobre miojo na cadeia, hoje me peguei pensando "será que na cadeia do Brasil tem miojo de tomate da Turma da Mônica?", porque o que eu faço comigo mesma, se fizesse com outra pessoa, seria crime inafiançável.
Felizmente pra mim ser desajustado psicologicamente ainda não é crime perante o estado, mas moralmente não deixa de ser.


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