Essas tardes entre o inverno e a primavera, onde nem ela começou, nem ele foi embora, sempre tiveram um jeito especial de me fazer fantasiar sobre o passado, sobre ontem, dez anos atrás, vidas passadas, quando tudo parecia melhor e menos doloroso, mais onírico.
Provavelmente porque, apesar de acreditar que todos os tempos estão sendo vividos ao mesmo tempo, acredito também que a gente escolhe qual janela abrir pra dar uma olhada.
Não devia ter nada de errado comigo, mas sempre tem alguma coisa, o que significa que não é nada externo, eu decidi que faria da minha vida um inferno torturante e tenho feito nos últimos tempos, mas eu sei que isso é mutável, é possível ser feliz com certo grau de alienação, não precisa nem ser total, nem 50%, só a dose certa de egocentrismo e se apreciar o suficiente te levam a olhar algo absolutamente repulsivo sobre o mundo e pensar sim "nossa, que pena, que chocante", mas depois aquele sentimento não continua te assombrando, não te causa nenhuma ataque de pânico, depois da sua empatia ser acionada e você se sentir triste por compaixão, depois desses 10 segundos que aquele assunto te afetou, passa, você esquece.
Provavelmente porque, apesar de acreditar que todos os tempos estão sendo vividos ao mesmo tempo, acredito também que a gente escolhe qual janela abrir pra dar uma olhada.
Não devia ter nada de errado comigo, mas sempre tem alguma coisa, o que significa que não é nada externo, eu decidi que faria da minha vida um inferno torturante e tenho feito nos últimos tempos, mas eu sei que isso é mutável, é possível ser feliz com certo grau de alienação, não precisa nem ser total, nem 50%, só a dose certa de egocentrismo e se apreciar o suficiente te levam a olhar algo absolutamente repulsivo sobre o mundo e pensar sim "nossa, que pena, que chocante", mas depois aquele sentimento não continua te assombrando, não te causa nenhuma ataque de pânico, depois da sua empatia ser acionada e você se sentir triste por compaixão, depois desses 10 segundos que aquele assunto te afetou, passa, você esquece.
Mas pra mim não passa nunca, pelo menos não tem passado.
Eu amo cozinhar, consequentemente, assistir programas aleatórios de culinária e, no trailer de um deles apareceu uma ave, viva, porém depenada, pronta pra ser morta e degustada.
Isso aconteceu há dois dias e eu já sonhei com essa imagem, às vezes transfigurada em outras mensagens de desespero, às vezes a ave realmente, várias vezes, algumas, não vezes demais, muitas vezes.
Acontece que eu não vou esquecer aquela ave, assim como não esqueci a primeira pomba que eu vi morrer atropelada, nunca vou esquecer o barulho que fez, de explosão, tinham mais 15 pessoas no ponto de ônibus e nenhuma delas se importou, de verdade.
Não por serem pessoas piores que eu, nenhuma delas era, mas por serem pessoas mais saudáveis, capazes de digerir traumas e seguir em frente.
Eu nunca vou esquecer o gatinho que eu vi envenenado na minha rua, não tinha mais vida no corpinho dele quando eu vi, não tinha mais nada, só um vasinho que um dia um gato habitou.
Eu não sei qual é o meu ponto com esse texto, parece que não adianta fazer sentido, porque nada de fato o detém, talvez as coisas só possam fazer sentido alguns segundos por vez e nesses segundos todo o resto do mundo precisa achar que você está louco. Talvez ver sentido em qualquer coisa seja mesmo a definição de loucura.
Eu sempre me desespero em tardes de Outubro e nas de outros meses também.
A tarde é mais difícil que a noite pra mim, porque nada que eu faça de tarde é suficiente, nada é bom, eu não consigo ser boa de tarde.
Ou de manhã, ou de noite, mas parece que eu só quero ser boa de tarde.
A tarde me obriga a confrontar o quanto eu não sou boa em nada.
E não estou fazendo nada para ser.
Eu finjo que escrevo ou que falo ou desenho, eu finjo cantar e aprender e fingindo o que me resta de vida me escorre pelas mãos e às vezes pelos olhos.
E viver pelos outros é possível, eu sou a prova existente que é. Mas dói.
E tudo em você reclama, sua dor é constante e física, você já nem reclama mais, parece fácil se entregar ao nada, mas o nada nunca é o nada, o nada é uma tortura assustadora, é não ter valor nenhum e nem querer ter e nem ver valor em nada.
Ficar assim tão perdido é ser um peso e um estorvo, porque todo mundo sabe o que você precisa fazer, mas você não faz, não faz porque não consegue, mas parece que é porque não quer.
E aí você passa a nem querer mesmo, cada vez menos, cada vez mais às vezes, até você não lembrar da sua última gargalhada sincera que não veio acompanhada de pavor e uma leve vontade de gritar.
Eu sei que os meus textos são parecidos com os que eu fiz quando eu tinha 15 anos, mas agora são menos autênticos e palatáveis porque a pessoa que escreve é outra e continua o mesmo tom, o mesmo medo, a mesma necessidade absurda de aprovação que me assola desde que eu me entendo por gente.
Deve ser exaustivo pra qualquer um, até pra quem vê de fora.
Imagina conviver com isso, imagina ser essa pessoa.
Espero que você não consiga nem imaginar e tenha uma vida bem mais feliz que essa e que a sua no dia de hoje e no de amanhã e assim sucessivamente.
Espero que a dor do mundo melhore pra ver se com ela melhora também a minha.
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