Mas o que é ser eu? Como que eu vou saber?
O eu é o que sobra quando acaba o medo.
O medo de se olhar, o medo da rejeição e da insuficiência.
O medo da solidão.
É solitário ser você, porque pra isso é necessário abdicar do que você construiu na sua mente sobre você, da identidade que você projetou pra ser amado.
E nem todo mundo consegue ou quer.
E quando as pessoas não são elas e você é, elas se sentem expostas, vulneráveis.
E ninguém gosta de se sentir vulnerável.
Não é nem consciente, só bate aquele sentimento de inquietação.
E eu só sei disso porque passei anos me deparando com essas pessoas que ousavam ser elas mesmas e era extremamente desconfortante.
É tipo como as pessoas se sentem quando elas descobrem que eu sou vegana.
"Você acha que você é melhor que eu?". Nem acho, não acho nada.
"Quem você pensa que é pra não precisar se esconder?".
Eu morria de medo de ser abandonada pelas pessoas que eu amava, mesmo no fundo, no fundo sabendo que elas não me amavam de volta.
Uma vez essa pessoa que era importante pra mim me confrontou por ter escrito uma carta.
Uma carta que eu nunca escrevi.
Ele não acreditou em mim quando eu falei que não tinha escrito e na época eu fiquei ofendida, pensava "eu não minto". E a verdade é que não mentia mesmo, não sobre nada, mas mentia o tempo todo sobre quem eu era.
O que eu queria.
O que eu sentia.
O que me incomodava.
Meus medos, minhas vontades.
Eu só queria ser amada.
É o que a maioria de nós quer.
Mas o engraçado é que o amor que a gente recebe nunca é o "que a gente queria".
Se sua mãe te ama "ah, mas porque ela é minha mãe".
Ignorando a sorte que é ter uma mãe que te ama.
Se seu avô te ama "ah, mas ele é obrigado".
E ninguém é obrigado a amar ninguém.
E mesmo que fossemos obrigados por lei, amor não é algo que se escolhe.
A gente só ama.
Amar nos faz reféns.
Acabei de ler um texto em que aparentemente meu avô estava bravo comigo e fiquei muito confusa, porque não lembro do meu avô bravo comigo.
Mas se eu escrevi é porque aconteceu, eu sempre reconheço meus textos autobiográficos.
E aparentemente ele ficou, mas agora não está mais.
Tenho passado bastante tempo com meu vô e meu pai. Tem sido muito bom.
Eu parei de desejar ser amada por quem não me ama, me agarro a todo o amor que recebo e tento deixar sempre claro o quanto sou grata e amo de volta.
Sofrer é uma filosofia de vida, filosofia ruim.
Não é opcional quando a gente ainda é jovem e confuso, mas com o tempo se torna uma opção.
E eu realmente cansei de sofrer por bobagem.
A vida já tem baixos demais pra eu ficar inventando moda.
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